Ricardo Magalhães é o jovem escolhido pelo partido Socialista para enfrentar João Heitor (PSD), entre outros.

Não será uma missão fácil mas quisémos saber como está a candidatura:

Correio do Cartaxo : Ricardo Magalhães, a escolha como próximo candidato pelo partido Socialista às eleições de outubro no concelho do Cartaxo foi unânime, foi consensual. Como surgiu o seu nome nos destinos do PS aqui para o Cartaxo?

RM – É um pouco o resultado do percurso que tenho vindo a fazer. Já conto com oito anos de experiência autárquica. Já tive a oportunidade de fazer parte das listas para a Assembleia de Freguesia, no Cartaxo, na União de Freguesias de Cartaxo e Vale da Pinta, de onde sou natural.
E agora, neste último mandato, também na Assembleia Municipal. Foram anos de muita aprendizagem.
Tenho tentado fazer o meu trabalho, como sempre fiz ao longo do meu percurso, também noutras áreas, de uma forma que me permita aprender e depois tentar fazer a diferença. É isso que me leva a participar.
Desse ponto de vista, as pessoas que têm acompanhado o meu trabalho têm valorizado o que faço. Têm-me dado responsabilidades. Há quatro anos, fui mandatário financeiro da campanha do Partido Socialista. Portanto, as pessoas têm-me confiado essas responsabilidades, e eu tenho tentado estar à altura. Creio que tenho gostado de assumir esses desafios e agora surgiu este convite para ser o cabeça de lista à Câmara Municipal.

  • Qual é a sua estratégia?
    RM- A minha estratégia passa por… Eu sou uma pessoa de estratégia. Provavelmente, isso deve-se à minha formação. Sou engenheiro mecânico e na verdade, trabalho muito com a otimização de processos. Neste caso, mais aplicado à indústria, mas que também pode ser generalizado para outras áreas.
    Além disso, procuro ter uma equipa de trabalho e uma forma de trabalho bastante otimizada. Acho que isso é algo em que toda a administração pública pode crescer imenso. Nas empresas, também tenho tentado investir muito nisso. Na forma como trabalhamos e na otimização, ainda mais com todos os meios digitais e de inteligência artificial que hoje em dia estão à nossa disposição. Sou também uma pessoa de pessoas. Talvez pela minha ligação ao desporto, que sempre marcou o meu percurso, tenho uma paixão muito grande pelo trabalho em equipa.
    Sempre olhei para os meus companheiros de equipa, seja no desporto, noutras áreas ou em pessoas que trabalham comigo, com muita esperança no que cada um tem para dar. Tenho muita confiança no que cada um traz de diferente à equipa. A minha paixão é sempre tirar o melhor que cada um tem para dar, começando por mim mesmo e criando um ambiente onde seja saudável discutir e discordar. Acho muito importante ter um ambiente onde possamos discordar uns dos outros, porque, pela minha experiência, a nossa primeira ideia nunca é a melhor. Crescemos com essa discussão, com esse discordar, porque nos apercebemos de pontos de vista que nos ajudam a trabalhar e melhorar a ideia.
    Sempre tive muito interesse na área empresarial e no empreendedorismo. Participei em vários programas e estive na iminência de lançar algumas startups. Isso também me ensinou a ouvir as pessoas, perceber os seus pontos de vista, não procurar justificar que estamos certos, mas perceber onde estamos errados e onde podemos melhorar. É assim que as nossas ideias amadurecem e se materializam em projetos bons, que podem ser implementados e transformar para melhor a nossa realidade.
  • Estamos em 2025 no Cartaxo. É a primeira vez desde o 25 de Abril que o PSD está à frente dos destinos do Cartaxo. Atualmente, o presidente do PSD, João Heitor, está no seu primeiro mandato.
    O que vai fazer para mostrar que realmente pode ser a grande alternativa de 2025?

RM - Acredito muito no funcionamento da democracia, é isso. Não gosto de dizer frases feitas, porque parece que estou só a repetir coisas que se dizem por dizer, mas não é o caso.
Acredito que a alternância democrática não só faz parte, como é saudável, e é bom que assim aconteça. Também me satisfaz olhar para os partidos e as suas ideias, os seus projetos. Há um caminho que tem sido seguido e que não foi totalmente atrasado nestes quatro anos.

Olho muito para o percurso do processo de consolidação financeira que tem sido feito na Câmara Municipal e vejo uma continuidade desse processo, que era necessário ser continuado e está a ser continuado. Vejo que foi preciso, pelo menos durante oito anos, fazer alguma contenção de custos para assegurar a liquidez, que agora foi necessária para este executivo poder chegar e aplicar. E nós também, se tivéssemos ficado, passaria muito por otimizar essa liquidez.
Vou dizer de forma mais simples, para toda a gente conseguir perceber.
O dinheiro que conseguimos amealhar na Câmara Municipal, algumas pessoas na altura perguntavam: “Se está o dinheiro amealhado, porque é que ele não é utilizado?” Foi necessário amealhar para que agora, nestes projetos europeus, em que vamos buscar esse financiamento, possamos avançar com o dinheiro para depois receber esse financiamento.
Ter esse dinheiro amealhado foi fundamental.

Agora é a continuação desse processo. E é algo que também me satisfaz, ver que muitas das propostas que tínhamos no nosso programa eleitoral há quatro anos estão a ser seguidas pelo PSD. Portanto, também viram muito valor no projeto eleitoral que tínhamos pensado para o futuro do Cartaxo. Aquilo que me preocupa é não ver uma visão de futuro, e foi uma das coisas que critiquei agora neste último orçamento e que já venho evidenciando noutros. Há uma falta de visão de futuro deste executivo, e preocupa-me porque, no nosso projeto eleitoral, muitas das medidas já estão aplicadas. Agora, mantendo esse guia para seguir, estou curioso para saber como será o futuro, mas, na verdade, já devia saber isso. Devia ser público.
Qual é a visão que o atual executivo tem para o Cartaxo, pergunto eu?
Pela nossa parte, estamos a montar e a estruturar ideias, para que tenhamos tudo apresentado da forma mais clara possível.
Apresentaremos um programa ambicioso para o Cartaxo. Temos muitas ideias do que é preciso fazer, porque, lá está, foi muito bem o que foi feito até aqui. Agora há muito mais a fazer.

E, às vezes, pergunto: “Mas então, porquê que estás a terminar o teu mandato? Porquê que dedicas o tempo para o curso profissional?” Naturalmente, tinha algumas propostas interessantes também a seguir, do ponto de vista profissional, como a primeira ação até bastante superior. Porquê que estás a aplicar isso para seguir esta tentativa? Porque acredito muito que essas competências, que são usadas para estar a favor de uma empresa, para melhorar os seus resultados e os seus mercados, podem ser aplicadas também aqui.

O problema é ver todo o valor que a minha geração tem e todo o valor que adquirimos com as competências que adquirimos a nível académico. Vejo isso não só a ser colocado nas empresas, infelizmente muitas vezes até no estrangeiro, mas também vejo pouca participação do ponto de vista político. Essa transformação que estamos a fazer a nível empresarial também deveria afetar a nível político e da administração pública.
Acredito muito no papel que as câmaras municipais têm no desenvolvimento de uma comunidade. O Cartaxo precisa de alcançar esse desenvolvimento, e é isso que quero fazer com a minha participação.

CC –Temos falado de alguns pontos que são genéricos, mas ainda abstratos. Em concreto, há alguma obra ou ideia que o Cartaxo precise urgentemente implementar?
Algumas coisas já estão a ser feitas, e reiterámos várias vezes, como é o caso do Centro de Saúde. A Saúde é um dos maiores problemas, e acho que isso está certamente relacionado com questões a nível nacional. Há um trabalho muito forte que precisa de ser feito a nível da reestruturação da saúde, para que o serviço que o Centro de Saúde proporciona seja de maior qualidade, maior eficácia, proximidade e resposta mais rápida. O nosso novo Centro de Saúde vai permitir isso, e estamos sempre a defender essa causa.

Há outras coisas que precisam de ser feitas. Acima de tudo, quando anunciei a minha candidatura, destaquei três áreas que, para mim, são fundamentais. O emprego é a primeira. É preciso ter emprego de qualidade e mais perto de casa. E isso para dois tipos de profissionais.

Para os profissionais mais qualificados, nos quais me incluo, é preciso ter empresas na região onde essas pessoas possam ter funções recompensadoras, tanto do ponto de vista profissional, para aplicar as suas competências, como do ponto de vista financeiro, para receberem de acordo com o que sabem e fazem. E depois há toda uma outra população que, não tendo essas qualificações académicas, tem qualificações técnicas, e que pode até desenvolver ainda mais essas competências técnicas.
Estamos também perante um problema crítico: a habitação. Vivemos uma crise de habitação no país, algo que é um problema global. Não estamos a ser devidamente alertados para os riscos que corremos. Por exemplo, corremos o risco de substituir a população local por outras pessoas devido à especulação imobiliária. Vejo muitos cartaxeiros a terem de sair do concelho.
O mercado imobiliário de alto valor económico tem crescido em Lisboa, com propriedades a atingirem valores inacreditáveis comparados com há poucos anos. Isso é muito impulsionado por cidadãos estrangeiros com elevada capacidade financeira, que conseguem pagar esses preços. O que acontece? Muitas pessoas de Lisboa vendem as suas propriedades, especialmente no centro, e mudam-se para a periferia. Esse fenómeno já está a acontecer em municípios próximos como Loures e Alverca.
O próximo passo, que já começa a acontecer, é que essa bolha imobiliária de Lisboa está a expandir-se para outras regiões, incluindo o Cartaxo. Pessoas que venderam as suas casas em Lisboa, com condições financeiras favoráveis, começam a deslocar-se para cá. Isso faz com que os preços subam, e, eventualmente, os residentes locais podem não conseguir comprar ou manter as suas casas. Este ciclo pode levar à expulsão de algumas pessoas do Cartaxo.
O Presidente da Câmara atual comentou que está à espera que a bolha imobiliária chegue ao Cartaxo porque, assim, será financeiramente mais rentável produzir novas habitações. Esta posição, na minha opinião, demonstra não só uma ausência de estratégia mas também uma falta de vontade de agir sobre o problema. Essa inação pode levar à expulsão de algumas das pessoas que vivem no Cartaxo.
Como cartaxeiro, cresci aqui e continuo a sentir um declínio na vida do centro da cidade. A nossa preocupação é reavivar o centro do Cartaxo. Queremos dar vida a todas as localidades do concelho, mas, em particular, o centro da cidade deve ser o coração do nosso território. Vamos trabalhar para revitalizar a vida na cidade, em conjunto com o comércio local, as associações e através de investimentos que sejam feitos para o bem-estar da comunidade.
Correio do Cartaxo: Acha que as Câmaras Municipais devem ter o papel de produtoras de espetáculos?
-Eu não o vejo assim.
Não penso que a sociedade funcione dessa maneira. Na minha opinião, o papel das Câmaras – e, de forma geral, do Estado – não é ser a força motriz de um país, mas sim um fator facilitador da dinâmica social e económica, de forma a que as atividades se sustentem e se gerem por si mesmas.

Contudo, sabemos que, por vezes, as Câmaras, mesmo quando promovem a produção, acabam por ser bloqueadoras, uma vez que existem inúmeros processos burocráticos – entre outros – que dificultam o trabalho das empresas, das pessoas e das associações, limitando a sua capacidade de avançar. Acredito que, em determinados momentos, não por ser o ideal, mas pela realidade atual, a Câmara Municipal deva tomar a iniciativa. Caso contrário, nada se faz – seja por parte de uma empresa, de uma associação ou da produção de festas. Existem exemplos brilhantes noutras localidades – por exemplo, as iniciativas dos quarenta ou cinquenta anos, ou de outras associações que promovem as suas regiões – que devemos copiar, pois representam uma dinâmica muito mais saudável. Sempre defendi que não se deve delegar a tarefa a apenas sete vereadores; temos de ser toda a população, unidos, pois quanto mais formos, maior será a nossa capacidade de fazer acontecer. Isto pode significar que, ocasionalmente, a Câmara assuma o papel de promotora, mas, se for necessário fazê-lo, significa que estamos a falhar, ou seja, o ambiente que deve permitir que as coisas ocorram naturalmente não está a funcionar. Temos um papel coletivo de proximidade com as pessoas – para verificar se estão a criar empresas ou grupos capazes de promover eventos – e de identificar como podemos ajudar para que isto aconteça por si só.

  • O Cartaxo vila, dos seus pais era melhor que este Cartaxo cidade?
    Eu cresci num Cartaxo comercial – já não ouvi falar do “Cartaxo Vila”, mas o Cartaxo onde cresci era extraordinário, um lugar que não trocaria por qualquer outro, porque nele guardo um carinho especial. É esse o sentimento: o carinho que fica pelo sítio onde crescemos foi na cidade, num per curso realizado enquanto éramos vila, que aprendi o valor do meu território.
    Contudo, temos de ter cuidado com a transformação de vila em cidade, pois, apesar de adquirirmos os benefícios próprios de uma cidade, também assumimos muitos dos seus problemas, como o distanciamento entre as pessoas. Corremos o risco de perder o espírito do que é ser “cartaxeiro”, de pertencer ao cartaz, de viver aquilo que nos define. Sempre que ouço os meus pais ou avós falar, com imenso amor, sobre a terra onde cresceram – e contar como era viver ali e a forma singular de ser das pessoas –, percebo que transformar tudo numa cidade implica que as pessoas se tornem cada vez mais desligadas da sua terra e umas das outras, o que vai abatendo a vida na cidade, mais do que qualquer melhoria nas condições materiais. Afinal, dificilmente tivemos condições melhores do que as atuais no que toca a saneamento, infraestruturas (como a ligação aos autoestradas, que foi fundamental para o desenvolvimento do concelho), centros culturais ou infraestruturas desportivas. Se viermos a ter uma cidade sem alma, mesmo contando com todas as infraestruturas, não conseguiremos a cidade que desejamos.

Acredito que fizemos a transição de vila para cidade, mas não devemos perder a nossa tradição, a nossa génese, o amor pela nossa terra e a participação ativa na mesma. É esse legado, das gerações anteriores, que quero preservar e, cada vez mais, antecipar – para que as pessoas possam sentir e reconhecer que aqui não são apenas indivíduos, mas vizinhos e amigos. Em Lisboa, muitas vezes, somos apenas mais um, enquanto aqui, não podemos ser assim, pois se formos dessa maneira, a cidade acabará por perder a sua essência.

Paulo Ferreira de Melo – Texto e fotos