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Afonso da Maia, sexagenário. Meão de altura, magro, barriga proeminente, tez morena, cabelo grisalho,
alguma calvície, barba rala em rosto macilento e enrugado, olhos castanhos, óculos com lentes “fundo
de garrafa” na ponta do nariz; alardeava contudo, jovialidade! Adorava, agora que estava reformado,
aproveitar as manhãs outonais mas solarengas para se deslocar a Lisboa e vaguear pelo verdejante
parque Eduardo VII. Grafomaníaco andava sempre munido de um bloco de notas e de uma
esferográfica, onde apontava todos os acontecimentos ou relatos de interlocutores ocasionais que
despertassem a sua atenção e constituíssem matéria para o próximo poema, conto ou livro que,
acabaria inevitavelmente na gaveta, como outros. A poesia foi um dom que se manifestou ainda
imberbe, pois escrevera o seu primeiro poema aos 11 anos de idade. Afonso sentia já, alguns
constrangimentos de ordem física mas, aceitava-os como uma inevitabilidade própria da sua idade.
Mas, o que mais o preocupava era a degenerescência das suas capacidades cognitivas. Tinha horror à
palavra senil e, por isso, lia e escrevia muito, porque percecionava que, quanto mais ginasticasse o
cérebro, mais retardaria a senilidade. Já exausto, sentou-se na relva fresca e “aveludada” e, pôs-se a
observar e a meditar. Sobreveio-lhe na memória uma crónica que tinha lido há algum tempo, num
mensário regional, cujo título lhe despertou a atenção: «Será que não somos, em algum momento
“órfãos” dos nossos filhos.» Relembrou-se do teor da narrativa e marejaram-se-lhe os olhos de
emoção. Todavia, pensou: ‘Será que não somos «“órfãos” dos nossos pais, enquanto estes ainda
vivos.» Oriundo de uma família disfuncional – pais divorciados – seu progenitor abandonou-o ainda em
tenra idade (“órfão” de pai vivo). Saiu de cada da progenitora aos 16 anos por não suportar mais aquele
ambiente obsidiante (órfão” de mãe viva). Sentia-se só e prenhe de dúvidas existenciais! Precisava de
“libertar-se” e de encontrar um propósito de vida. Aos 20, conheceu a mulher da sua vida, Sara Maia,
com quem casou 2 anos depois. Nela encontrou a família que procurava: reciprocidade no amor,
carinho, respeito, valor, dádiva da paternidade, incentivo à realização dos seus sonhos, paz e o “ciúme
manso”; e, em contraposição aos maus exemplos de carácter que presenciou dos progenitores,
vociferou em voz baixa: Não, nunca fui por aí! E desatou a escrevinhar um poema que intitulou, MÃO
NA MÃO (vide caixa abaixo) numa homenagem à sua meritíssima companheira e mãe de seus filhos,
que respeita profundamente! E epilogou: «Como a vida pode tornar-se numa “tragicomédia”!»

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